novembre 08, 2009

sabias que. . .

octobre 09, 2009

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Modena, 23 de Setembro de 2009


Ainda minha Prunella,

A tua última carta vinha despovoada de qualquer sentido. Imaginei-te a escrevê-la entre copos de vinho tinto da nossa última colheita, tinta espalhada pelo teu corpo e tertúlias com os nossos ilustres artistas sediados em Florença. Sempre perdeste um pouco a noção, quando envolvida nos meandros pouco transparentes da arte. Mas não me posso queixar, o teu comportamento descontinuado e espaçado sempre foi um ponto que em ti me atraiu.

Esta casa, propriedade na minha família há tanto tempo, nunca foi uma morada certa para mim. Era apenas uma paragem obrigatória por questões profissionais. Estava no meu destino continuar os negócios da família, não posso dizer que desgosto, aliás, é estar nesta posição que me possibilita dedicar-me à escrita e às coisas bonitas da vida.

Foi contigo que deste espaço nasceu a nossa morada, o porto de abrigo. A nossa família que somos eu e tu. E agora, acontece-me não saber bem o que fazer quando aqui estou. Fazem-me falta os nossos passeios, as tamanhas perversidades que ambas cometemos no verde e na paz que aqui se vive. Faz-me falta ter-te sentada entre as minhas pernas no terraço que construímos porque insistias que nunca poderias ser feliz numa casa sem terraço. Por amor ao que tu amavas, eu também soube que o terraço faria parte de mim. Da história arquitectada nesta quinta antiga.

Saberás que de tudo o que me dói, a tua ausência é o que faz ferida.

Saberás também tu que não sei ficar numa vida onde a partilha é lenha fugidia dos teus próprios interesses individuais.

Diz-me agora, em que ponto destes três anos é que me confundiste com alguém que se alimentaria de migalhas prostradas em cartas semanais? Ou será que te confundiste a ti, ao te achares capaz de permanecer uma vida de raiz ao lado de alguém?

Sei que se fugisse, se divorciasse as nossas almas neste reles mundo, não ficarias sozinha. Quantas meretrizes te acompanham nos teus dias em Florença? Quantas te invocam enquanto pintas os seus corpos desnudados?

Agora diz-me. Quantas celebram o teu corpo como eu celebro o teu pequeno coração?

A resposta pode ficar contigo. Se ainda a souberes dar.

Viajo daqui a dois dias para Londres. Participarei em duas palestras sobre escrita contemporânea e ficarei hospedada em casa dos nossos amigos Phil e Elisa Blazon.

De ti e de mim, já não sei o que esperar. Mas o teu regresso ainda é aguardado com ânimo.

Da ainda tua,
Francesca.

février 23, 2009


[Gabriele Rigon]



Na tua nudez encerro a minha mudez.